Visita a uma Tribo Masai - o Turismo Moderno?

    

 Visitei uma Tribo Masai! Será que visitei mesmo?!


    Partimos cedo de Nairobi, rumo até Masai Mara – província de Narok. Connosco vinha o nosso guia dos próximos dias, Left, um masai de 38 anos, que iria acompanhar-nos na estadia por Masai Mara. O transporte era nada menos que um jipaço verde tropa, com teto de abrir.

    Já na estrada, a excitação que sentia pelos dias que se advinham, era demasiado alta para sucumbir ao sono. Passei a viagem de olhos colados à janela: observo as aldeias - umas de construção moderna, outras apenas feitas de chapa e contraplacado; contemplo crianças a brincar, babuínos à beira da estrada e, finalmente vislumbro massais a passear sobre as vastas planícies do Quénia.
Algumas paragens depois, pelas 14h, chegámos ao nosso acampamento das próximas 3 noites onde fomos recebidos por membros da Tribo Masai. O excitement começava a subir!

O Left era um homem calmo e modesto, falou-nos um pouco da sua família e da aldeia em que vive e foi graças a ele que aprendi imenso sobre a cultura masai. (Fun fact, chama-se assim porque é canhoto).

    Depois de instalados, Left questionou-nos se queríamos fazer de imediato a primeira visita à Reserva Natural de Masai Mara ou se preferíamos conhecer uma aldeia Masai.
Sempre tive curiosidade em conhecer esta famosa Tribo, pelo que a resposta foi fácil!

 Talvez tenha percebido mal, mas a ideia com que fiquei é que iriamos visitar a vila do Left, o que certamente tornaria a experiência mais única, ainda para mais já nutrindo empatia por ele.
    No entanto, fomos parar a uma aldeia Masai a escassos km’s do nosso acampamento.
À porta, fomos abordados pelo Alex, filho do chefe desta aldeia. Com ele, vinha outro masai que trazia um chapéu feito de juba de leão na cabeça - caminhava em passos lentos enquanto soprava sobre um corno de antílope.

     A nossa atenção foi rapidamente canalizada para os homens e mulheres Masai que caminhavam na nossa direção: aos saltos, desafiando a gravidade e emitindo sons tribais. Pararam em meia lua à nossa frente e mantiveram as festividades, uma mulher masai puxou-me para a roda e começou a saltitar ainda mais - limitei-me a copiar. Ao meu lado, o masai Simon, tenta ensinar-me a fazer um som do qual por mais que tentasse seria impossível de reproduzir – som seco, oco, provindo da traqueia, que segundo eles é o som que os leões fazem – o máximo que reproduzi foi um ladrar de um cão. Juntos, dançávamos com as mãos ao alto, enquanto entoávamos o “som do leão”; dei por mim a “ver-me de cima” e não consegui esconder um sorriso envergonhado por todo o aparato.
As danças terminaram e limitámo-nos a seguir o Alex até ao interior da aldeia.

        Um conjunto de casas feitas de barro e tetos de cimento - criados com água, terra e dejetos animal. As casas eram instaladas em circulo para formar um belo anfiteatro no interior, com intuito de convívio entre os vários membros da comunidade, afinal de contas, segundo o Alex, ali são todos irmãos e irmãs; e, o mesmo também servia para colocar o gado durante a noite e protege-los de potenciais atacantes.

    A visita pelo interior passou por: aprender a fazer fogo com paus – perícia da qual após algumas tentativas, consegui pouco mais do que uma faísca; conhecer o interior de algumas casas – sem eletricidade e bastante modestas; conversar com os seus residentes e aprender mais sobre os seus costumes.


        Sentada no chão a brincar com as crianças e as cabrinhas, dei por mim com um sorriso de orelha a orelha e, pensei: que sortuda que sou!

    Pouco depois, os massais chamam-me para que os siga; e, eis que dou de caras com 3 filas de cerca de 20 bancas, carregadas de acessórios, esculturas e outros objetos alusivos à tribo. A espontaneidade e ingenuidade com que vivi a última hora e meia, foram levadas pelo desapontamento – não passava de mais uma “excursão turística”. Vi e comprei alguns acessórios, a verdade é que já tinha interesse em poder contribuir de qualquer modo, pelo que foi o pretexto perfeito. No entanto, a vontade desvanecia-se progressivamente com a minha sombra - o masai Simon andava sempre atrás de mim de forma (in)direta a forçar-me a comprar mais.

      O Alex, pegava na minha câmara e disparava flashes pelos habitantes da aldeia. Dizia que poderíamos tirar todas as fotografias que desejássemos - como se de um "zoo" se tratasse. Apesar de consentidas, também eu, contribui para um tipo de turismo que condeno.


        Saí da aldeia com mix feelings e nos dias que se sucederam questionei-me várias vezes sobre a veracidade do que (vi)vi. Terá sido apenas uma encenação? Será que todas aquelas pessoas que vira vivem efetivamente ali? Terão as comunidades alterado a favor do turismo? O compelir a compra de artigos no final da “visita”, terá sido própria da cultura ou do “aproveitamento”?

    Por outro lado, é uma forma de mostrarem a sua cultura com algum aproveitamento económico para a sua comunidade…
Pairam várias questões sobre esta experiência e, a conclusão a que chego é que não foi certamente 100% autêntica. Porém, terei que admitir que gostei da visita. Genuína ou não, tive a oportunidade de contactar de perto com uma cultura diferente, e mesmo que, se convivi apenas com 1/10 daquilo que é verdadeiramente uma tribo Masai, pelo menos tive uma amostra. E... "I mean", não é todos os dias que tens essa oportunidade!

    Ao longo dos dias seguintes, observei sempre de fora as tribos massais tanto pelo Quénia, como pela Tanzânia. Constatei que todas elas, assemelhavam-se há que visitara, o que conferiu credibilidade à minha experiência.

        Debrucei-me a aprender ainda mais sobre esta tribo; e em vários artigos que li, descobri que a expansão das reservas naturais está a limitar o seu nomadismo e terreno para a criação de gado; já possuindo um forte holofote por parte do turismo, a tribo promove este tipo de visitas como forma de rendimento oferecendo novas oportunidades económicas.

        Regresso às questões – será justo as imposições? A fim ao cabo é turismo.


    O sentimento negativo com que me detive, poderá dever-se à minha necessidade em viver experiências o mais genuínas possíveis - onde presencie o calor e a pura morabeza do povo. Nem sempre o é possível. E está tudo certo.

        Não obstante, as questões coloco são: “sentirias a mesma a vontade em ajudar ao seres forçado?” e "Será o turismo moderno invasivo?"

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