Viagem Huay Xai - Luang Prabang

São 00h22 e acordo com o balançar do autocarro por entre as curvas e contra-curvas, e o solo esburacado sobre o qual, para alívio meu, o condutor tem a gentil ação de abrandar. Olho para a pequena janela dos meus aposentos, e apenas vejo escuridão e contornos de árvores.

Pessoas ao meu redor dormem, seja nas “camas” ou no corredor. Questiono-me sobre estas últimas, o porquê de irem dessa maneira: pagaram menos?  A viagem delas será mais curta que a minha? E depois questiono-me - e se me pedissem eu trocaria de lugar?  E se de um(a) idoso(a), grávida, criança se tratasse?
.
São 00h30 e relembro: Já não durmo como deve ser há dois dias (ou talvez 3), a última refeição que me aconchegou o estômago já foi no dia 16, passei hoje o dia atravessar uma ponte, a fazer um visto, e mais não sei quantas horas numa paragem de autocarro sobre um calor húmido que, aliando-se aos restantes fatores, colocava-me num estado de inércia e de certa apatia. Nessa estação, entre brincadeiras com as crianças que foram sorrateiramente ter connosco, senti-me a afundar no assento de tal cansaço.
 Sinto-me suja e com uma vontade descomunal de lavar os dentes.
Já estou dentro do autocarro desde as 17h e ainda faltam mais 9h de viagem.
Resta-me água e uns snacks até à chegada. Valeram-me as duas refeições de arroz na paragem de autocarro e na “estação de serviço”.
Tenho a boca seca mas opto por controlar a ingestão hídrica, pois não sei quando tornaremos a parar.
 Fecho os olhos e tiro tempo para mim. Questiono-me se terei estofo para estas andanças. Refletindo novamente: so far, tenho.
“Eu não sou eu quando tenho fome”, sono ou vontade de ir à casa de banho. Mas hoje, de certa forma, consegui controlar o meu humor. Já é motivo de superação.

00h45, o autocarro para, e as jovens mulheres do corredor saíram. Sinto-me menos culpada. (Ainda em desconstrução desse sentimento.)

Apercebo-me, hoje já é dia 18/11, o que significa que amanhã faço 25 e estou aqui literalmente no meio do nada. À exceção do Miguel, com completos desconhecidos. 

É tudo tão aleatório mas sinto-me kinda excited!
Volto a tentar adormecer, com o coração mais aconchegado, quando relembro que daqui a umas horas terei mais conforto que até agora não tive, desde que parti nesta jornada.
#ÉTudoUmaQuestãoDeEquilibrio


18 de novembro de 2022, Laos


Nota: Para quem quer viajar da Tailândia para o Laos, uma das melhores opções (baratas) é viajar de Chiang Mai até Chiang Khong e de seguida atravessar a ponte até Huay Xai.

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